A saudade, esta ausência, é mais presente que a própria presença material. Sinto-a tão profunda, mais real que a realidade. Não só em relação às pessoas, mas também, a momentos, às coisas e até a falta de momentos. Saudades de quando tinha uma vida mais intelectualmente ativa. Lembro de Oscar Wilde, quando se dirigindo a um amigo disse que os momentos de prazer vividos acabaram com a criação intelectual. Voltando à saudade. Saudade é um dos sentimentos mais urgentes que existem. Lispector conhecia-a muito bem quando chegou a dizer isso. Saudade é a prova de um passado bem vivido. Quando mais rico o passado maior a saudade, quem não tem saudade teve um passado pobre, bem disse Rubem Alves. Sobre a saudade disse Manoel de Barros: “Tem mais presença em mim o que me falta”. Já me perguntei por que é mais presente a saudade do que o objeto dela, mesmo quando o objeto nem existiu. Parece que Lispector questionou também, pois disse: “É estranho sentir saudade de algo o qual mal vivi ou evitava viver”. Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro, também passou por isso: “Também temos saudade do que não existiu, e dói bastante.” Quer saber se uma pessoa teve um grande passado?! Pergunte-a se sente saudades... Lispector tinha tamanha saudade, conhecia-a tão profundamente, que sentia saudade até por si própria. Há alguns meses atrás senti saudade de uma coisa que não existiu, escrevi: “E se ser é aparecer - talvez você não exista - mas e essa saudade "de uma inexistência"?! Saudade do nada para o nada. Talvez não seja nada...” Saudade é uma palavra que só existe no galego e no português , vem do latim "solitas, solitatis" (solidão), na forma arcaica de "soedade, soidade e suidade" e sob influência de "saúde" e "saudar". Saudade é uma solidão saudável. Solidão por que não se tem o objeto e saudável, pois só quem a tem teve um passado bom. Nas outras línguas usam o termo falta ou ausência para denotar saudade. Acredito que Drummond de Andrade queria dizer saudade, ao invés, de ausência nesse poema:
“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.”
É interessante esse ponto de vista, inverso ao de Fontaine que acreditava que a ausência é a causa de todos os males. Renato Russo na música Índios expressava: “Quando descobri que é sempre só você (saudade) que me entende do início ao fim e é só você que tem a cura pro meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que ainda não vi”. Vale a pena a troca da palavra você pela saudade. A saudade nos entende, sabe o que é importante para nós, é ela que nos faz descobrir, que nos faz agir. A cura da saudade é ela própria. Saudade não pode ser uma coisa ruim, como alguns crêem.A roteirista e cronista Tati Bernardi concorda que a saudade pode ser uma coisa boa: “ Eu tenho saudade de mil coisas e todas essas mil coisas sempre caem na mesma única coisa de que eu tenho tanta saudade.Eu tenho saudade de tudo.Não é um sentimento egoísta e muito menos possessivo. É apenas uma saudadezinha. Gostosa, tranqüila, bonita, saudável, de longe”. Não estou sendo saudosista, termo que carrega grande carga pejorativa, até Deus é a realização da saudade. Numa de suas crônicas Rubem Alves escreve: “Oramos para que aquilo que se perdeu no passado nos seja devolvido no futuro. Acho que Deus não se incomodaria se nós o chamássemos de Eterno Retorno: pois é só isso que pedimos dele, que as coisas da saudade retornem”. Por último quero deixar um poema que escrevi conversando com minha amiga Layla Almeida (http://doqueeuprecisoelembrar.blogspot.com/ ) :
Saudade são as grandes lembranças que foram para alma
Não procuramos momentos felizes
Procuramos tão somente fazer os momentos virarem saudade
Por ela sabemos que alguém fez bem para nós
E assim vão para alma
É por esta ausência que a falta é mais presente que a presença...

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