quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Amor... Psicologia e Poesia...



“O amor é aquilo que traz consistência e harmonia psíquica, que direciona a energia psíquica, que satisfaz e insatisfaz, num movimento continuo e alternado até ser postergado.

É fruto da imaginação, assim fazemos uma imagem onírica do ser amado e a cristalizamos, ou seja, atribuímos características que consideremos ideais e assim amamos essa imagem como se condizesse com a pessoa que era para amarmos.

Segundo a psicanálise a dor do amor, não é a dor da perda do ser amado, é dor da inconsistência e desarmonia psíquica, causada pela descristalização da imagem onírica do ser amado sobre a qual a psique encontrava sua estabilidade.” ¹

“Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É um conceito nosso – em suma, é a nós mesmos – que amamos.Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma idéia nossa. O onanista é abjecto, mas, em exacta verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.

As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha’ complexidade. No próprio acto em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois “amo-te” ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstracta de impressões que constitui a actividade da alma.

Estou hoje lúcido como se não existisse. Meu pensamento é em claro como um esqueleto, sem os trapos carnais da ilusão de exprimir. E estas considerações, que formo e abandono, não nasceram de coisa alguma – de coisa alguma, pelo menos, que me esteja na plateia da consciência.”²

“Todo o homem de hoje, em quem a estatura moral e o relevo intelectual não sejam de pigmeu ou de charro, ama, quando ama, com o amor romântico.

O amor romântico é um produto extremo de séculos sobre séculos de influência cristã; e, tanto quanto à sua substância, como quanto à seqüência do seu desenvolvimento, pode ser dado a conhecer a quem não o perceba comparando-o com uma veste, ou traje, que a alma ou a imaginação fabriquem para com ele vestir as criaturas, que acaso apareçam, e o espírito ache que lhes cabe.

Mas todo o traje, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e em breve, sob a veste do ideal que formamos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em quem o vestimos.

O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceita desde o princípio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura, por eles vestida.”³

Para não amar, nunca imagine ou pense que aquela pessoa é única, insubstituível, nas características, nos ideais e tudo aquilo que de forma direta ou indireta faz a pessoa ganhar valor..Pense que ela é substituível, nos defeitos, que não têm valores compatíveis com os seus, sempre olha para ela com um olhar objetivo, ou seja, é um ser humano normal com qualquer outro, todos são especiais e nem por isso amamos todos.



¹ Minha interpretação do livro A DOR DE AMAR de Juan David Nasio.
² e ³ Trechos do livro O LIVRO DO DESASSOSSEGO de Fernando Pessoa.

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