domingo, 25 de julho de 2010

Relacionar : Tênis x Frescobol ? - Rubem Alves


Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.

Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: ‘Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?\' Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.’

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: ‘Eu te amo, eu te amo...’ Barthes advertia: ‘Passada a primeira confissão, ‘eu te amo\' não quer dizer mais nada.’ É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: ‘Erótica é a alma.’

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada - palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...

A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...

Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:
‘Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: ‘Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo\'. A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: ‘Tens razão, minha querida\'. A situação está salva e o ódio vai aumentando.’

Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...(O retorno e terno, p. 51.)


quarta-feira, 21 de julho de 2010

O que é o "eu" ?



Quem sou eu ?
O que seria esse eu ?
O eu não é uma unidade imutável, determinada, estritamente definida em suas fronteiras. O eu no cérebro é uma confusão entrelaçada de sensações, animosamente barganhadas com elementos exteriores ? Sensações estas que passaram sozinhas pelo mundo afora ?! Esse eu irremediável. Será a combinação destas sensações ? Uma verdade ou ilusão ? O eu é somente aquela sensação de segurança ao manter um supervisor no cérebro ?
Não existe um eu, ninguém foi ou já teve um eu ! Não existe uma força que mantenha a coesão interna de nosso ser ! Somos a mistura disso com aquilo, pura sincresia, ilusão...

Um cadáver não tem um eu, ninguém encontrou, e provavelmente nunca encontrará esse eu abstrato, esse conjunto complicado de mecanismo eletroquímico.

A neurociência está perto de descobrir o "eu", através de estudos com pessoas anormais, que infelizmente sofreram um tipo de disturbio. Os neurocientistas consideram que existem vários estados do "eu".A ausência de um desses estados é causada por um disturbio.

Portanto sou vários “eus”, quando sinto: que este corpo me pertence, que sei onde estou, que eu sou o ponto central do mundo que vivencio, que essas sensações são realmente minhas, que ações e atitudes são de minha responsabilidade, que me julgo, que penso em e que guardo para mim o que sou,e por fim a minha consciência.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Vivendo novamente, faria as mesmas coisas ?




E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse:
Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes.Não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio.
A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!
Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim?

Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías:
Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!

Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa:
Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?
Esta pergunta pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?
¹


Minha fórmula para a grandeza no homem é amor fati:não querer nada de outro modo, nem para diante, nem para trás, nem em toda eternidade. Não meramente suportar o necessário, e menos ainda dissimulá-lo – todo idealismo é mendacidade diante do necessário –, mas amá-lo...²

Tudo vai, tudo volta; eternamente gira a roda do ser.

Tudo morre, tudo refloresce, eternamente transcorre o ano do ser. Tudo se desfaz, tudo é refeito;
eternamente fiel a si mesmo permanece o anel eternamente constróí-se a mesma casa do ser.
Tudo se separa, tudo volta a se encontrar;do ser.
Em cada instante começa o ser; em torno de todo o "aqui " rola a bola "acolá ".
O meio está em toda parte. Curvo é o caminho da eternidade. ³


¹
A gaia ciência, aforismo 341.
² Ecce Homo, II, aforismo 10.
³ Assim falou Zaratustra, "0 convalescente", § 2

quarta-feira, 14 de julho de 2010

ALMA



Não sei quem sou, nem se alma tenho .
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.
Sinto crenças que não tenho.
Me sinto trair um caráter que talvez eu não tenha.
Me vejo múltiplo, e sinto-me um só
Sou quem sabe como o espelho que reflete o contrário e oposto do que se vê !!!
Razão nenhuma poderia satisfazer qualquer intenção sobre o conhecimento de quem
eu sou, pois a realidade é abstrata demais , e a forma absoluta da linguagem não pode sentir
nem definir –me sem correr o risco da metafísica.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim e ainda sim ser incompleto,
como se o meu ser participasse de um todo no cosmos e ainda o vazio do espaço
Posso ser eu sendo qualquer um,
Posso ser uma metáfora de mim
Quem sabe apenas fingir que sou eu
Em qualquer teoria faltaria elementos
Para saber ser ou não ser !