quarta-feira, 27 de abril de 2011

Sem ou com Identidade própria...



Ontem uma amiga me disse que sofro de falta de identidade própria, pois não acredito em verdades absolutas, e tenho uma visão de mundo muito, senão totalmente relativista. Lembro do primeiro período da Faculdade que estudei uma brevíssima introdução à epistemologia, René Descartes com seu racionalismo e John Locke com empirismo. Com o passar do tempo comecei a me identificar com a filosofia, a essa busca de respostas. Tenho um conhecimento superficial de epistemologia e não me atrevo a me aprofundar em exames técnicos filosóficos. 

Porém comecei a pensar sobre o que é ter identidade própria. É ser diferente, ser único, ter a sua individualidade no meio social. Identidade própria é ter opinião própria, opinião formada. Diriam alguns que é ter suas verdades. Pergunto-me: existe alguma verdade absoluta, incontestável? É claro, a água é incolor, insípida e inodora. Mas toda água é assim? Não. Toda verdade tem sem ponto fraco, sua antítese, seu contra-argumento. E essa tensão entre verdade ( tese) e contra-argumento ( antítese) gera a síntese. A síntese seria a verdade relativa. O problema  é que chegamos  ás nossas verdades focalizadas somente em nosso ponto de vista que quase sempre fica adstrito às nossas experiência e nossos saberes . Deste modo mudando o ponto de vista a verdade fica prejudicada, desvanece. Daí o perspectivism tendo como seu maior defensor o filosofo alemão Friedrich Nietzsche . Nietzsche defende que não podemos chegar à verdade, pois vemos o mundo de acordo com nossas experiências e saberes, com nossos próprios olhos, como se depreende com seu aforismo 374 da sua obra Gaia Ciência: 


O nosso novo «infinito»- Até onde vai o caráter perspectivo da existência? Possui-a mesmo outro caráter? Uma existência sem explicação, sem «razão», não se torna precisamente uma «irrisão»? E, por outro lado, não é qualquer existência essencialmente «explicativa»? É isso que não podem decidir, como seria necessário, as análises mais zelosas do intelecto, as mais pacientes e minuciosas introspecções: porque o espírito do homem, no decurso destas análises, não se pode impedir de se ver conforme a sua própria perspectiva e só pode ver de acordo com ela. Só podemos ver com os nossos olhos; é uma curiosidade sem esperança de êxito procurar saber que outras espécies de intelectos e de perspectivas podem existir; se, por exemplo, há seres que sentem passar o tempo ao invés, ou ora em marcha para diante, ou ora em marcha para trás (o que modificará a direção da vida e inverterá igualmente a concepção da causa e do efeito). Espero, contudo, que estejamos hoje longe da ridícula pretensão de decretar que o nosso cantinho é o único de onde se tem o direito de se possuir uma perspectiva. Muito pelo contrário, o mundo, para nós, voltou a tornar-se infinito, no sentido em que não lhe podemos recusar a possibilidade de se prestar a uma infinidade de interpretações.


Nietzsche ainda tem uma fórmula de como chegar à objetividade, visto que para ele “Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.” Esta é a formula em Genealogia da Moral, III, 12 :


Somente existe um ver perspectivo, só um conhecer perspectivo; e quanto maior for o número de afetos que mencionamos ao falar de uma coisa, quanto maior forem o número de olhos, olhos diferentes, com que a observarmos, mais completo será nosso conceito dessa coisa, a nossa objetividade.


Diriam ainda que ter identidade própria é ter opinião própria. Acho que não.  Olhando com um olhar mais amplo e profundo, chegaremos à conclusão de que nossa opinião é  formada por opiniões alheias. Digo nossos saberes são formados também por saberes de outras pessoas.  Para você ter a opinião de que Papai Noel existe, primeiramente teria de saber o que ele é e o que é existir. Uma opinião é formada por elementos empíricos, cognitivos e psicológicos. Diria Karl Marx que “Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência”. Existe também aquele famoso ditado popular “Eu sou eu e minhas circunstâncias”.


Hoje estava escutando a música  3ª Do Plural do Engenheiros que fala sobre capitalismo e marketing. Lembrei da Revolução Industrial e a coisificação da pessoa. A pessoa era uma coisa, uma ferramenta de trabalho e nada mais. Não se tinha a individualidade. Hoje mostramos nossa individualidade com o materialismo. Isso. O materialismo é a manifestação da nossa individualidade. Se antes a “homem” era coisificado hoje a coisa é homenficada. Daí o “ Sou o que consumo”,” Consumo, logo existo”. Desta forma a individualidade não pode ser o marco da identidade própria.


Identidade própria é ser único em comparação aos outros, é aquilo que nos diferencia das outras pessoas.  Somos todos únicos,Até gêmeos são diferentes, sempre algo os diferencia um do outro. Assim todas as pessoas possuem identidade própria, visto que sempre terá algo a diferenciá-las dos outros, seja até fisionomicamente.


A minha opinião é de que somos todos iguais nas diferenças e temos nossa identidade própria. Todavia, como diria Nietzsche,  “jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma. Porém, eu iria pelo direito de ter e mudar de opinião, quantas vezes eu quisesse”. 


Lembrei de um poema do Fernando Pessoa para reflexão :


“Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas
Quanto mais personalidades eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora."

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Beijos







Quarta-feira, meio de semana, todos empilhados de afazeres e Dia do Beijo. Dizia Machado de Assis que a melhor definição do amor não vale um beijo. Concordo, há coisas que não devem ser definidas, faladas, e inclusive o beijo. Há coisas que quanto mais se sabe e experimenta menos se tem valor, o que não é o caso do beijo. Ao contrário quanto mais se fala, mais se tem vontade. Dizem que quem fala demais nada faz, pode até ser, mas geralmente a boca fala do que o coração está cheio, dizia a Bíblia. Está em Cântico versículo Dois: ”Ah! Beija-me com os beijos de tua boca! Porque os teus amores são mais deliciosos que o vinho”. 

Existem tantas informações sobre beijo, a reação bioquímica do beijo no corpo, o beijo dos signos, técnicas de como beijar bem,  que deixa o beijo mecânico, sem sal, sem “sentimentos”.  Nada como um beijo espontâneo, sem pedir, adivinhado, permitido pelos olhos.  Esse  balança o corpo todo, nos tira do mundo, despeja adrenalina para nunca termos que pular de pára-quedas.  




As crianças que são mestras em beijar as coisas. Colocam tudo na boca. Conhecem o mundo através da boca.Nascemos com a necessidade de beijar.  Beijar é conhecer o outro pela boca. Quando alguém aborda outrem numa festa, com vontade de beijar diz: posso te conhecer, só não diz que é com a boca. 

Tem uma música do Chico Buarque chamada Cotidiano, cantada também por Seu Jorge e Arnaldo Antunes, que fala sobre beijos, a alternância entre o cotidiano e os beijos, de hortelã, café. Dá a entender que os beijos fazem parte do cotidiano, mas não. É a única coisa de diferente no cotidiano.


Faça do seu cotidiano diferente, beije, faça alguém especial....

terça-feira, 12 de abril de 2011

Avaliação da Performace das Escolas por Rubem Alves


 
O título mais simples para esse artigo seria: “Avaliação da educação”. Mas não quero misturar “educação” com aquilo que as escolas fazem.  A educação é algo que transborda dos limites das escolas. Por vezes ela se  choca com as escolas. Acho que foi Mark Twain que disse que não permitia que a escola interferisse na sua educação... Educação é aquilo que passa a fazer parte do nosso ser. Parte do que sou tem a ver com a música erudita sobre a qual nada se disse nas escolas que freqüentei. Era como se não existisse. Não fazia parte do programa. O mesmo é verdadeiro em relação ao meu prazer em ler, escrever, contemplar a natureza. Essas coisas são parte de mim mesmo. Mas não foi nas escolas que as aprendi.
Quando um professor tenta ensinar alguma coisa ele tem de pressupor que aquilo é importante, não vai ser esquecido, vai fazer uma diferença na vida do seu aluno. Caso contrário o seu trabalho não terá sentido. Assim, ele deve ter a curiosidade de saber sobre o destino das informações e habilidades que tentou ensinar. O que aconteceu com elas?
 Quero sugerir um método para se fazer isso valendo-me de uma metáfora. Imagine que você resolveu se dedicar ao negócio de fabricação de salsichas. Para isso, para transformar carne em salsichas, há uma máquina. Numa das extremidades da máquina coloca-se a carne. Aperta-se um botão. A máquina se põe a funcionar. Na outra extremidade saem as salsichas, prontinhas.  Para se avaliar se a máquina é comercialmente vantajosa basta comparar o peso da carne que foi colocada no funil de entrada com o peso das salsichas produzidas. Se, na entrada, se colocaram 100 quilos de carne e saíram 95 quilos de salsichas, a máquina é ótima. Mas se só saírem 10 quilos de salsichas, a máquina não presta.
 Imaginei que se poderia avaliar o desempenho das escolas por meio de um exame elaborado  segundo o modelo da máquina de salsichas. O objetivo seria comparar o que entrou com o que ficou. Freqüentei escolas por dezessete anos: quatro anos no curso primário, um no curso de admissão, quatro no ginásio, três no curso científico e cinco no curso superior. Multipliquei o número de meses, pelo número de dias, pelo número de horas, pelo número de anos: cheguei ao número 16.320 – o número de horas que passei assentado em carteiras ouvindo as coisas que os professores tentavam me ensinar. É claro que esse número deve estar errado. Seja. De qualquer forma, é muito tempo o tempo de vida que se passa assentado nos bancos escolares. O que sobrou? O exame seria assim:
Primeiro: o programa seria constituído de tudo, absolutamente tudo que se pretendeu ensinar nesses 17 anos, do primeiro ao último ano.
Segundo: aqueles que vão fazer o exame não assinarão os seus nomes porque o que se procura não é o desempenho individual mas o desempenho da máquina escolar.
Terceiro: será proibido freqüentar cursos preparatórios para tais exames. Será proibido também recordar a matéria. Se isso fosse feito o propósito do exame seria abortado. Imagine que um diabético tem de fazer um exame de sangue para testar seu nível glicêmico. Mas ele, malandro, querendo enganar o médico, na véspera do exame só come alface com bife e no dia seguinte pela manhã toma um comprimido de Amaril. O resultado do exame seria totalmente falso. O aprendido é aquilo que fica depois que o esquecimento fez o seu trabalho. O exame que proponho quer saber o que sobrou. Se os examinandos se prepararem para o exame os resultados não revelarão o que realmente sobrou, mas o que foi colocado na memória na última hora.
Eu me sairia muito mal. Não me lembro das classificações das rochas. Lembro-me dos nomes “dolomitas” e “piroclásticas”, mas não sei o que significam. Esqueci-me do “crivo de Erastóstenes”. Não sei fazer raiz quadrada. Não sei onde se encontra a serra da Mata da Corda. Também me esqueci das dinastias do faraós e dos nomes dos imperadores romanos. Lembro-me do princípio de Arquimedes mas não sei a lei de Avogadro.  Não aprendi Latim, o que me causa grande dor porque Latim é música. Sei pouquíssimo de análise sintática, o que não me faz falta para escrever. Escrevo com meu ouvido. Acho que dos 100% de saberes que as escolas tentaram enfiar dentro de mim só sobrariam uns 10%. Você depositaria suas economias mensalmente, num fundo de investimento, por dezessete anos, se você soubesse que depois desses dezessete anos você iria receber só 10% do que você depositou?
Alguns concluirão que a culpa é dos professores. Outros que a culpa é dos alunos. Não creio que a culpa seja dos professores ou dos alunos. Acho mesmo é que culpa é da carne que se põe na máquina: ela está estragada. As salsichas cheiram mal. O nariz as reprova. Se comidas, produzem perturbações gástricas. O jeito é vomitá-las. Concluo: a performance das escolas melhorará se a carne estragada for substituída por uma carne que produz salsichas apetitosas... 

"Procuro despir-me do que aprendi
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu..." Alberto Caeiro