Ontem uma amiga me disse que sofro de falta de identidade própria, pois não acredito em verdades absolutas, e tenho uma visão de mundo muito, senão totalmente relativista. Lembro do primeiro período da Faculdade que estudei uma brevíssima introdução à epistemologia, René Descartes com seu racionalismo e John Locke com empirismo. Com o passar do tempo comecei a me identificar com a filosofia, a essa busca de respostas. Tenho um conhecimento superficial de epistemologia e não me atrevo a me aprofundar em exames técnicos filosóficos.
Porém comecei a pensar sobre o que é ter identidade própria. É ser diferente, ser único, ter a sua individualidade no meio social. Identidade própria é ter opinião própria, opinião formada. Diriam alguns que é ter suas verdades. Pergunto-me: existe alguma verdade absoluta, incontestável? É claro, a água é incolor, insípida e inodora. Mas toda água é assim? Não. Toda verdade tem sem ponto fraco, sua antítese, seu contra-argumento. E essa tensão entre verdade ( tese) e contra-argumento ( antítese) gera a síntese. A síntese seria a verdade relativa. O problema é que chegamos ás nossas verdades focalizadas somente em nosso ponto de vista que quase sempre fica adstrito às nossas experiência e nossos saberes . Deste modo mudando o ponto de vista a verdade fica prejudicada, desvanece. Daí o perspectivism tendo como seu maior defensor o filosofo alemão Friedrich Nietzsche . Nietzsche defende que não podemos chegar à verdade, pois vemos o mundo de acordo com nossas experiências e saberes, com nossos próprios olhos, como se depreende com seu aforismo 374 da sua obra Gaia Ciência:
O nosso novo «infinito»- Até onde vai o caráter perspectivo da existência? Possui-a mesmo outro caráter? Uma existência sem explicação, sem «razão», não se torna precisamente uma «irrisão»? E, por outro lado, não é qualquer existência essencialmente «explicativa»? É isso que não podem decidir, como seria necessário, as análises mais zelosas do intelecto, as mais pacientes e minuciosas introspecções: porque o espírito do homem, no decurso destas análises, não se pode impedir de se ver conforme a sua própria perspectiva e só pode ver de acordo com ela. Só podemos ver com os nossos olhos; é uma curiosidade sem esperança de êxito procurar saber que outras espécies de intelectos e de perspectivas podem existir; se, por exemplo, há seres que sentem passar o tempo ao invés, ou ora em marcha para diante, ou ora em marcha para trás (o que modificará a direção da vida e inverterá igualmente a concepção da causa e do efeito). Espero, contudo, que estejamos hoje longe da ridícula pretensão de decretar que o nosso cantinho é o único de onde se tem o direito de se possuir uma perspectiva. Muito pelo contrário, o mundo, para nós, voltou a tornar-se infinito, no sentido em que não lhe podemos recusar a possibilidade de se prestar a uma infinidade de interpretações.
Nietzsche ainda tem uma fórmula de como chegar à objetividade, visto que para ele “Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.” Esta é a formula em Genealogia da Moral, III, 12 :
Somente existe um ver perspectivo, só um conhecer perspectivo; e quanto maior for o número de afetos que mencionamos ao falar de uma coisa, quanto maior forem o número de olhos, olhos diferentes, com que a observarmos, mais completo será nosso conceito dessa coisa, a nossa objetividade.
Diriam ainda que ter identidade própria é ter opinião própria. Acho que não. Olhando com um olhar mais amplo e profundo, chegaremos à conclusão de que nossa opinião é formada por opiniões alheias. Digo nossos saberes são formados também por saberes de outras pessoas. Para você ter a opinião de que Papai Noel existe, primeiramente teria de saber o que ele é e o que é existir. Uma opinião é formada por elementos empíricos, cognitivos e psicológicos. Diria Karl Marx que “Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência”. Existe também aquele famoso ditado popular “Eu sou eu e minhas circunstâncias”.
Hoje estava escutando a música 3ª Do Plural do Engenheiros que fala sobre capitalismo e marketing. Lembrei da Revolução Industrial e a coisificação da pessoa. A pessoa era uma coisa, uma ferramenta de trabalho e nada mais. Não se tinha a individualidade. Hoje mostramos nossa individualidade com o materialismo. Isso. O materialismo é a manifestação da nossa individualidade. Se antes a “homem” era coisificado hoje a coisa é homenficada. Daí o “ Sou o que consumo”,” Consumo, logo existo”. Desta forma a individualidade não pode ser o marco da identidade própria.
Identidade própria é ser único em comparação aos outros, é aquilo que nos diferencia das outras pessoas. Somos todos únicos,Até gêmeos são diferentes, sempre algo os diferencia um do outro. Assim todas as pessoas possuem identidade própria, visto que sempre terá algo a diferenciá-las dos outros, seja até fisionomicamente.
A minha opinião é de que somos todos iguais nas diferenças e temos nossa identidade própria. Todavia, como diria Nietzsche, “jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma. Porém, eu iria pelo direito de ter e mudar de opinião, quantas vezes eu quisesse”.
Lembrei de um poema do Fernando Pessoa para reflexão :
“Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas
Quanto mais personalidades eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora."
